top of page

Barcelona (2026): sobre fotos, trabalho e tempo

  • Foto do escritor: Fabio Braga
    Fabio Braga
  • 5 de jun.
  • 3 min de leitura

“And you run and you run to catch up with the sun but it's sinking

Racing around to come up behind you again

The sun is the same in a relative way, but you're older

Shorter of breath and one day closer to death”


"E você corre, corre para alcançar o sol, mas ele está se pondo

Dando a volta para surgir atrás de você outra vez

O sol é o mesmo, de forma relativa, mas você está mais velho

Com menos fôlego e um dia mais perto da morte"


Trecho de Time, do álbum The Dark Side of the Moon (1973) do Pink Floyd


 

Estive em Barcelona a trabalho em fevereiro de 2026. Cheia de turistas e com vida social vibrante, é uma cidade intensa.


Em uma noite livre, sugeri aos colegas jantar em um local que eu já conhecia e havia sido indicado por uma amiga: o El Xampanyet, localizado no El Gòtic, ou Bairro Gótico. Neste bar e restaurante, além de tapas exóticas, também é servida uma bebida fermentada feita no local: o próprio Xampanyet. Assim como o bairro no qual está localizado, o El Xampanyet tem um ambiente caótico, que, ao mesmo tempo, exala alegria e vida.

 

Entre restaurantes e lojas de souvenirs, no Bairro Gótico encontram-se ruínas do Império Romano, incluindo a Muralha de Barcino, a colônia que deu origem à cidade de Barcelona. Construída entre os séculos I a.C. e IV d.C., parte da fortificação resistiu ao teste do tempo e convive com o mundo moderno e suas tecnologias. Seus arquitetos e construtores jamais imaginariam que um visitante, vindo de um continente desconhecido na época, passaria por ali guiando-se por um mapa exibido em uma tela conectada a satélites em órbita do planeta.


 

Nessa mesma noite, ao caminhar pelo Gótico e como costumo fazer no tempo livre em viagens ao exterior, levei minha câmera para fotografar o entorno e sua rotina, no caminho entre o hotel e o restaurante.

 

Desta vez, no entanto, questionei a razão de sair com uma câmera para fotografar pessoas anônimas interagindo com o espaço urbano, em vez de me contentar em tirar selfies ou fotos com amigos e familiares em frente a locais famosos usando um celular. Não me leve a mal: não há nada de errado em eternizar momentos em locais turísticos, eu também faço isso. Mas afinal, o que leva os fotógrafos de rua a retratar o cotidiano das cidades ?

 

Creio que cada um tem seus próprios motivos para fazer fotografia de rua: praticar uma atividade artística que permite ampla liberdade de criação ou fazer conexões com pessoas que possuem o mesmo interesse. Pode ser até mesmo algo mais profundo, como sugere o fotógrafo Sean Tucker, em seu livro The Meaning in the Making: uma tentativa de ter algum conforto ao buscar ordem em meio ao caos, num universo que tende à desordem.


 

Além destas, uma das minhas razões é particularmente melancólica. Por trabalhar com tecnologia, em algum momento percebi que o produto final do meu trabalho não deixará, ao contrário dos antigos impérios, um legado material neste mundo: nenhuma muralha, edificação imponente ou sequer uma escultura cuidadosamente entalhada em mármore. Deixarei somente bytes armazenados em discos magnéticos ou circuitos eletrônicos, com prazo de validade limitado ao próximo avanço tecnológico. Com o tempo, mesmo esses bytes serão apagados e o mundo seguirá seu curso.


A fotografia congela a vida em movimento numa tentativa, ainda que fútil, de lutar contra o desaparecimento. Procuro não retratar o ambiente urbano de forma aleatória, simplesmente apontando a câmera para uma multidão e disparando o obturador: tento eternizar momentos, isolando ou enquadrando pessoas em determinados contextos ou interações, buscando alguma harmonia ou ordem em meio ao caos das cidades. É uma batalha perdida contra o tempo, essa dimensão traiçoeira que nos presenteou com uma origem, mas que também nos conduz, dia após dia, ao destino final.


 

E antes que você me lembre, sim, eu sei que, assim como os bytes que salvei, estas palavras e as fotos que tirei também serão apagadas depois que o meu tempo passar. Mas isso é assunto para outro texto que, sinceramente, não pretendo escrever.


Apenas continuarei fotografando.



sim, eu também faço selfies de vez em quando

(com os amigos do trabalho no El Xampanyet)

 
 
 

Comentários


  • Instagram
bottom of page