Fotografia de rua: conexões improváveis e fotos não publicadas
- Fabio Braga

- há 7 dias
- 4 min de leitura
Bruce Gilden é um fotógrafo de rua norte-americano conhecido por se lançar de forma abrupta na frente das pessoas e disparar sua câmera com um flash à queima-roupa. Idosos, pessoas em situação de rua, dependentes químicos e portadores de deformidades são temas recorrentes em sua fotografia.

Bruce Gilden em ação: disparando câmera e flash sem permissão no rosto de estranhos
Resolvi escrever sobre fotografia de rua porque recentemente, durante uma viagem de férias a Marrocos, fui repreendido duas vezes por estranhos ao perceberem que estavam sendo fotografados, mesmo a uma distância considerável.
A maneira como fotografo a rua é diametralmente oposta à abordagem de Gilden, que particularmente não me atrai: em linhas gerais, gosto de isolar personagens em cenários urbanos interessantes, levando em conta cores, geometria ou usando pessoas como escala humana, frente à brutalidade ou grandeza das metrópoles. Sempre faço isso a uma distância razoável, na maioria das vezes com lentes teleobjetivas (com zoom) e sem invadir o espaço pessoal de ninguém.

escala humana em Veneza, 2019
Ademais, eu sabia que a população de Marrocos é avessa à fotografia por questões religiosas e culturais. Por esse motivo, tomei o máximo de cuidado para evitar conflitos: fotografei sempre à distância ou, ao andar pelas ruas estreitas das medinas, sem olhar no visor (viewfinder) da câmera, mantendo-a na altura do peito e apontada para o ambiente.
Mesmo assim, um senhor em Chefchouen reclamou por ter sido fotografado. Minha reação foi simplesmente continuar andando como se ele não estivesse falando comigo, evitando um confronto com alguém que provavelmente não falava inglês.
Talvez o correto fosse tentar falar com ele e apagar a foto. Mesmo tendo saído da situação com a imagem, resolvi não publicá-la no feed do Instagram, somente neste post, com uma tarja que impede a identificação do morador.

Em Fez, uma nova reclamação: ao perceber uma viela com um arco e uma pessoa andando na contraluz, resolvi fazer uma foto. Nesse momento, um vendedor de hortaliças que, confesso, funcionaria muito bem como primeiro plano da imagem, percebeu que sairia no enquadramento e reclamou de forma veemente, também em árabe.
Desta vez, o guia da excursão estava ao meu lado e conversou com ele em seu idioma, dissipando a tensão. Depois, me contou que avisou o vendedor que a foto não era dele e encerrou o assunto. Uma imagem a menos para o portfólio:

Refletindo depois sobre o ocorrido, me questionei se havia passado dos limites em alguma situação, não só em Marrocos mas também em outros momentos, violando a privacidade das pessoas.
Fora algumas exceções, fotografar em ambientes públicos é uma atividade lícita na maioria dos países. Entretanto, nem sempre o que é lícito é ético. Mais do que isso, a ética dificilmente é baseada em parâmetros objetivos: cada um de nós estabelece, além da legalidade, os próprios limites de comportamento que pautam nossa vida pessoal e profissional.
Dilemas éticos e morais também permeiam a fotografia. Da minha parte, desde que comecei a fotografar ambientes urbanos, tracei algumas "linhas vermelhas": pessoas em situações vexatórias ou de rua e dependentes químicos. Nenhum destes temas jamais será abordado por mim, muito menos publicado. Eu tenho arquivadas algumas fotos de pessoas em situação de rua e dependência química, que durante saídas fotográficas me abordaram e pediram para fazer retratos. Mesmo com permissão para fotografar, preferi nunca publicar as fotos em redes sociais ou mesmo aqui.
A questão da privacidade também é um tema recorrente quando se fala em fotografia de rua. Hoje em dia, com a onipresença de câmeras de segurança monitorando todos nossos passos, é impossível dizer que temos algum resquício de intimidade resguardado no espaço público. Entretanto, um outro ser humano nos retratando incomoda mais que a vigilância à qual somos submetidos diariamente. Talvez estejamos acostumados com este tipo de monitoramento e até mesmo com outras pessoas filmando e fotografando com celulares, porém cada vez menos com fotógrafos portando câmeras.

foto feita na medina de Marrakech em modo "hip-shoot", sem olhar no visor da câmera
No caso de Marrocos, pensei em outro fator que pode explicar a aversão à fotografia: será que, na visão dos retratados, um fotógrafo, particularmente ocidental, não passa de alguém em busca de imagens "exóticas" ? Afinal, as ruas, mercados e pessoas que para nós aparentam ser insólitos, fazem parte do dia a dia de quem vive no local.
No fim, talvez o exótico sejamos nós, vindos de longe com uma câmera na mão.
Via de regra, ao viajar em férias ou a trabalho, não chegamos sequer a arranhar a superfície da cultura e do estilo de vida dos habitantes locais, por falta de tempo hábil para uma imersão no país visitado. Mesmo assim, de certa forma, a fotografia cria uma conexão do fotógrafo de rua com as pessoas retratadas. Nos casos mencionados, infelizmente provoquei uma conexão negativa, por ter incomodado dois estranhos, ainda que involuntariamente.
Todavia, nem toda conexão é ruim: no verão de 2022, passei alguns dias em Nova York com minha esposa e decidimos conhecer Coney Island. Por sorte, visitamos a cidade justamente no final de semana da "Mermaid Parade", um desfile de fantasias que ocorre uma vez por ano no calçadão da praia. Fotografei um casal fantasiado e marquei a publicação com a hashtag do evento. Qual não foi minha surpresa quando uma mulher comentou no meu post que havia sido retratada na imagem abaixo:

Coney Island Mermaid Parade, NYC, 2022
Me ofereci para enviar uma versão em alta resolução, ela aceitou e compartilhei a foto. Desta vez, a fotografia criou uma ligação altamente improvável, porém positiva entre dois estranhos que moram a milhares de quilômetros de distância um do outro.
Por falar em conexões, ainda em Marrocos, na cidade de Assilah, um garoto me abordou pedindo um retrato, ao que atendi prontamente. Me arrependo por não ter deixado meu contato, para que eu pudesse compartilhar a foto com ele.
Ao menos, a atitude irreverente e o sorriso do garoto compensaram, em grande parte, a frustração que senti ao incomodar algumas pessoas durante a viagem.

Assilah, Marrocos
Não tenho as respostas para os dilemas e dúvidas que abordei neste post. Mesmo assim, continuarei fotografando ambientes urbanos, seus personagens e, quem sabe, criando conexões efêmeras e improváveis com pessoas e locais.
Apesar das situações que vivi em Marrocos, no final das contas, a ética que defini para minha fotografia vem funcionando bem até o momento... inclusive me impedindo de sair à rua disparando flashes no rosto de estranhos.



Comentários